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Injustiça – Carta aos 16 anos

Nota: Em 1967, aos 16 anos de idade, ao tomar conhecimento da preterição – e, portanto, fim da carreira – de meu pai na Marinha, escrevi uma carta para ele contando da minha admiração pelo seu percurso, por seu caráter, e idealismo, e ao mesmo tempo compartilhando minha tristeza com a injustiça que (na minha opinião) tinha sido cometida. Era presidente do país o General Costa e Silva, e ministro da Marinha o Almirante Rademaker. Hoje, passados 58 anos, resolvi adicionar um PS àquela carta. Papai já não está mais entre nós, mas lembro-me sempre dele com saudade, e ainda escrevo pensando nele. Um resumo com a essência da carta original vem após o PS.



PS:

Após a publicação pelo Jornal do Brasil de um pequeno extrato de minha carta, recebemos em casa uma advertência do governo militar de que esse tipo de manifestação não seria tolerado e que poderia trazer consequências severas.

Ao ser preterido meu pai pediu transferência para a reserva, e despediu-se dos seus companheiros de farda “(na esperança de que) os mentalmente jovens prossigam na luta, combatendo em prol dos ideais renovadores para a criação de um país forte, e condizente com a sua grandeza.” Tudo levava a crer que a sua preterição, apesar de importantes sucessos como oficial engenheiro, tenha sido causada por seu espirito crítico e por sua luta constante em prol de inovação e progresso em todas as funções que ocupou, priorizando sempre um tratamento digno aos seus subordinados de todos os níveis. Sua participação numa chapa vitoriosa para o Clube Naval, liderada por um capitão-de-mar-e-guerra, e não por um almirante, não ajudou. Ele próprio resumiu assim: “Estou convencido de que essa decisão eliminatória é decorrência da atuação que tive durante toda a minha vida de oficial disciplinado, mas em luta permanente pela evolução da Marinha, e inconformado com a falta de espirito renovador.”

Compreendo hoje o efeito que esses acontecimentos tiveram nas decisões que tomei dali em diante. Dois anos depois, por exemplo, apesar de ter passado no vestibular para a Escola Naval, desisti do meu sonho de “enfrentar o mar no passadiço de um navio da armada.” Eu viajaria muito, muito mais do que teria imaginado naqueles dias, mas não com a bandeira brasileira no mastro do meu navio. Imagino que isso tenha acontecido com muitos outros que assim como eu eram jovens e sonhadores naquela época de medo, prisões sem explicação, e desaparecimentos.

Outro dia presenciei pela primeira vez uma parada naval. Foi por ocasião das comemorações do Dia da Independência, 7 de setembro de 2022, ao largo das praias de Ipanema e Copacabana no Rio de Janeiro. Fiquei surpreso ao perceber que um dos navios, uma imponente fragata, trazia o nome “Rademaker”, em homenagem ao almirante que participou ativamente de diversos governos da ditadura, foi um dos signatários do AI-5, e como ministro da Marinha avalizou a preterição do meu pai. A turba da extrema direita, ostentando a obrigatória camiseta da seleção, enlouquecia de felicidade sonhando ver em breve o seu líder e “mito”, enquanto eu chorava pelo que poderia ter sido.

Infelizmente preciso reconhecer que as afirmações esperançosas que fiz na conclusão da carta ao meu pai foram ingênuas. As injustiças ficaram sim, claro, na memória dos que as sofreram e presenciaram. Mas os responsáveis pelas injustiças e pelo terror continuam intocáveis, imunes, e até venerados por muitos na direita conservadora do Brasil que se dizem patriotas. Alguns até foram promovidos a nome de ponte e navio de guerra! Além disso, neste mundo dominado por plataformas digitais de alcance global – turbinadas pelas fortunas de empresários inescrupulosos – a verdade continua em guerra contra a mentira e a ignorância, mas não existe garantia alguma de que a verdade vá sair vitoriosa. Pelo contrário.


Extratos de uma carta a meu pai em 1967

Por mais que hoje a virtude seja ridicularizada, a honestidade desprezada, e o patriotismo considerado uma futilidade, eu passei a acreditar nessas coisas, em grande parte por causa do seu exemplo. É justamente por se terem arraigado tão sólidos esses sentimentos, que agora eu me revolto.

Quanta hipocrisia nas afirmações daqueles que vivem a se ufanar da pátria, a invocar a bandeira e a hierarquia; daqueles que se cobrem de branco e saem a balançar as medalhas na rua! Mas eles são fantasmas, não mais que o derradeiro eco da covardia e da fraqueza moral que tem assolado o Brasil. Eles desaparecerão na poeira do tempo.

Mas as injustiças que eles praticaram ficarão, não para desanimar as gerações vindouras, mas para servir-lhes de exemplo, e para mostrar-lhes que por mais que a verdade seja combatida, por mais que ela seja eclipsada pela ignorância e pela cegueira, ela se incumbe de destruí-las.

Despedida da Marinha. Aquarela de meu pai em 1967.

Guerra – Os Canhões da Praia

O forte fica na Ponta da Igrejinha, no extremo sul da praia. Quando foi inaugurado em 1914 não havia igual na América do Sul em termos de resiliência e poder de fogo. O costão rochoso que o emoldura, e um recife isolado que fica a pequena distância ao longo do seu eixo principal, provocam ressacas memoráveis, pois o mar ali se estende irrestrito até a África e a Antártida. A sudoeste do forte, caminhando cerca de 800 metros através da Praia do Diabo, atingimos a Pedra do Arpoador, e pouco depois a Praia de Ipanema. A Ponta do Leme, em cima da qual está plantado o Forte Duque de Caxias, fica 3,4 quilômetros ao nordeste da Ponta da Igrejinha. Entre as duas pontas e as duas fortalezas se espalha um dos bairros mais vibrantes do Rio: a “princesinha do mar”, Copacabana. Enquanto operacionais, os canhões do forte podiam atingir alvos a até 23 quilômetros de distância com projeteis de quase meia tonelada, defendendo a entrada da Baia de Guanabara num setor de 150°, desde Piratininga ao leste até a Ponta da Joatinga ao sudoeste. Atualmente as torres da fortaleza já estão em silencio há mais de meio século e assim permanecerão para sempre, pois com o tempo o desgaste natural e a corrosão imobilizaram os seus mecanismos de pontaria e municiamento. A antiga praça de guerra virou museu, restaurante, e programa de fim de semana, e assim atrai dezenas de milhares de visitantes ao ano.

Visitei o forte ao entardecer num dia de inverno, quando ele completava 110 anos. Entreguei minha entrada ao soldado de plantão e segui por um caminho em rampa suave, bem arborizado, tendo do lado esquerdo a praia, e do lado direito construções de alvenaria caiada de branco com os escritórios, alojamentos, e outras instalações auxiliares do forte. O mar estava calmo, a praia luminosa pintada de barracas e pipas, e naquela hora apenas crianças e gaivotas vez por outra quebravam a paz. A casamata, impressionante pela espessura das suas paredes e pelo projeto de engenharia que permitiria ao forte continuar em ação mesmo sob pesado fogo inimigo, estava à minha frente. Entrei, e fui relembrando antigas lições de história do Brasil através das exposições do museu. Um dos eventos mais significativos envolvendo o forte ocorreu em 1922, três anos e meio após o término da 1ª Guerra Mundial, e ficou conhecido como o episódio dos “Dezoito do Forte”.

Diante de um sistema eleitoral manipulável e sem a proteção do voto secreto, o Brasil permaneceu refém de elites que se alternavam no poder durante toda a Primeira República (1898-1930). O direito ao voto era limitadíssimo – apenas cerca de 2,5% da população participava das eleições presidenciais – e, portanto os resultados das eleições careciam de representatividade. Ao término do mandato de Epitácio Pessoa, havia muita insatisfação com o governo e com a direção em que caminhava o país, sobretudo entre o oficialato mais jovem. Sob a liderança do Marechal Hermes da Fonseca – ex-ministro da guerra e ex-presidente da república – uma parcela dos militares se revoltou. Durante a rebelião, militares aquartelados no Forte de Copacabana abriram fogo em direção à cidade, mirando o Palácio do Catete, o Forte Duque de Caxias, a Ilha das Cobras e o prédio do Ministério da Guerra, causando fatalidades nos dois últimos. Trocaram também tiros com o Encouraçado São Paulo que havia levantado ferro juntamente com o Minas Geraes para tentar subjugar a fortaleza.

Encouraçado Minas Geraes

Imagine-se o quadro: um navio brasileiro lançando projeteis de 305 mm contra um forte em Copacabana, cuja blindagem os projeteis do navio não poderiam penetrar. O forte, por sua vez, podendo lançar projeteis explosivos também de 305 mm capazes de perfurar a couraça e destruir o navio com seus mil e tantos tripulantes. Felizmente nenhum disparo de parte a parte causou maiores danos. Por fim o movimento não obteve apoio suficiente de oficiais mais graduados, outros focos rebeldes se renderam , e ficou claro que as forças do governo sairiam vitoriosas. Num gesto final de coragem e desafio, dezoito que ainda resistiam dentro do forte saíram para enfrentar cerca de três mil soldados leais ao governo. Só dois desses revoltosos sobreviveram, ainda que bastante feridos: Siqueira Campos e Eduardo Gomes. O governo agiu com severidade contra os revolucionários, e o Marechal Hermes ficou preso no mesmo forte que havia construído.

A bordo do Cruzador Tamandaré (Foto CAMS)

O episódio dos dezoito tem importância quase mística na memória da nação , e marcou o início de um longo período de crises, revoltas, marchas e contramarchas país afora. O forte trocou tiros contra o Encouraçado São Paulo novamente em 1924, porém desta vez quem carregava amotinados era o navio. Atiçado pela depressão econômica mundial, eclodiu em 1930 o golpe de Getúlio Vargas. Entretanto, um quarto de século mais tarde, apesar de progressos importantes em termos de industrialização e nas leis sociais e trabalhistas, a nação permanecia rachada. Em 1955 o Forte de Copacabana abriu fogo contra o Cruzador Tamandaré: a Marinha tentava impedir a volta do Getulismo, enquanto o Exército preferia respeitar o voto popular.

Quanto aos eventos que vieram depois já tenho lembranças próprias. Do período anterior ao golpe de 1964 recordo o medo de uma eventual ditadura repressiva no estilo soviético. Como aluno do Colégio Pedro II no Humaitá, lembro-me da promessa de uma aurora democrática com Castelo Branco, da decepção com o anoitecer deflagrado pelo quinto ato institucional, e do terror deslanchado por uma ditadura repressiva no estilo brasileiro. O Forte de Copacabana serviu de calabouço para prisioneiros políticos, mas não encontrei no museu exibição sobre isso. Não tem placa nas celas onde ficaram os prisioneiros, nem explicação sobre a sorte dos que desapareceram país afora sem deixar vestígio. Da tortura que houve, no forte ou noutras prisões, os gritos das vítimas não estão registrados. Teve anistia declarada pelo próprio regime militar, e pouquíssimos foram punidos até hoje. O museu e suas vitrines quedam mudas, mas as paredes, as grades, e os caminhos do forte carregam ecos do passado.

Lembro finalmente de um dia em setembro de 2022, um século após a marcha corajosa dos dezoito, quando o forte foi pano de fundo para um comício gigante, em que dezenas de milhares de brasileiros ouviram o presidente sugerir que as eleições daquele ano seriam fraudadas, e que, portanto, ele só deixaria a presidência “preso ou morto”. Vieram tiros e fumaça do forte, mas eram apenas salvas comemorativas. A multidão coberta de verde e amarelo temia outra vez o fantasma de um governo autoritário de esquerda. Felizmente ninguém saiu marchando armado nem foi morto naquele dia por causa do discurso do presidente, embora alguns tenham fugido para Miami e outros partido para depredar a sede do governo na capital do país. Mas vocês conhecem bem essa história.

Tendo visto a casamata subi ao topo da cobertura de 4 metros de espessura que a protege. Queria finalmente ver os canhões, e olhar junto com eles em direção ao horizonte de onde viriam as esquadras inimigas em tempos passados. Qual não foi a minha decepção quando percebi que os canhões do forte estavam apontados em direção à cidade. A cúpula número 1, com calibre de 305 mm, mira um ponto entre a Escola Dr. Cicero Penna e o hotel mais famoso do Rio. A cúpula número 2, com calibre de 190 mm, aponta entre as ruas Almirante Gonçalves e Miguel Lemos. Teria sido emocionante mirar ao longo dos tubos imaginando algum perigo que viesse do mar. Em vez disso avistei os prédios da Avenida Atlântica.

Enquanto o forte era parte ativa do sistema de artilharia de costa, seus canhões precisavam mudar de posição periodicamente. Isso porque o peso dos tubos é tão grande que se ficassem sempre na mesma posição provocariam um afundamento na estrutura de suporte e pontaria da cúpula. Portanto, era normal que os tubos da fortaleza estivessem vez por outra apontando para pontos em terra. É pena, porém, que as últimas guarnições que ainda poderiam ter manobrado com os canhões não tenham pensado em deixá-los apontados em direção ao mar aberto, contra um agressor imaginário, e não contra a cidade que eles estavam ali para defender. Ainda que somente pelo efeito simbólico que esse direcionamento teria no futuro.

Quando me dirigi de volta ao pórtico do forte, dezenas de visitantes passeavam e tomavam chá servidos por garçons de uniforme branco. Aproveitavam seus momentos de lazer como se coadjuvantes num palco histórico e lindo. Mas o forte e seus canhões, apontando diretamente para o coração do bairro, nos lembram de todas as vezes em que pegamos em armas contra nossos compatriotas, e nos acusam de omissão. Omissão de não querer ouvir opiniões divergentes. Omissão por ignorar o pleito de alguém que não é do nosso time nem veste a mesma camisa. Omissão por nos acharmos melhores do que os do outro lado, sem lhes dar chance honesta para se explicarem. Omissão de forçar uma solução violenta quando o jogo vai contra nós. Omissão de não querer saber e de apenas “sorrir e acenar” cinicamente. Nos omitirmos é fácil e covarde. Encontrarmos as soluções que permitirão reconciliar facções, unir o país, e construir um futuro melhor para os nossos filhos e netos, é duro e requer coragem.

Farol da Barra, Salvador – Bahia. Aquarela de meu pai, 1943.